Segunda-feira, Outubro 02, 2006

Dia após dia...

... o poeta acorda pela manhã, e em sua mente confusa pelo repouso, o labor já se manifesta, quando um olhar vadio pela janela reproduz cores e sons em uma partitura finamente emoldurada, repleta de beleza simples, pura.
Em devaneio livremente construído, um cambalear trôpego até o banheiro torna-se um vagar épico por praias nas paredes, palavras em brochuras e carrancas nas prateleiras.
A primeira mijada (obrigatória) do dia converte-se em memórias escatológicas de arrebentação em fluidez idílica, espuma borbulhante de onde novas Afrodites emergeriam, luxuriosas e vibrantes, infiéis e irresistíveis, a olhos de deuses e homens.
Vestir-se, então! Iguala-se a experiências virginais onde linho e seda convertem-se em pele macia, o farfalhar de pêlos em suspiros deslumbrados de gozo jamais experimentado ou esquecido.
Um último olhar para o espelho, e este diz: "Ninguém te conhece tão bem como eu!". Cúmplice de si mesmo, satisfeito com saber tão particular e clandestino, o poeta sai, pronto para tudo.
A fantástica rotina se esvai, vítima de imaginação poderosa que a violenta e transforma em contos e rimas e linhas demais para tão pouco espaço como é o dia, donas de interesse profano, quase sacro, até o retorno à casa que se chama: Lar.
Já banhado (outra experiência única em multiverso sempre em mudança), o poeta, em seu caminho para o quarto, vê-se no espelho, e a ele repete a frase que ouvira de manhã.
(E não consegue dormir, com pena de tão solitário reflexo.)

1 comentários:

Leandro Durazzo disse...

a insólita solidão
é solitude
solitária
e solidificante